Butão: O país que decidiu medir a felicidade em vez da pressa

Vista do majestoso Punakha Dzong na confluência de rios rodeado pelas montanhas dos Himalaias no Butão.

Há países que passaram décadas a tentar descobrir como produzir mais, crescer mais depressa e transformar cada aumento do PIB numa celebração nacional. O Butão decidiu fazer uma pergunta ligeiramente inconveniente: e se o desenvolvimento servisse também para tornar as pessoas mais felizes?

Encravado nos Himalaias, entre a Índia e a China, este pequeno reino transformou a Felicidade Interna Bruta numa filosofia nacional e conseguiu uma proeza curiosa: fazer com que economistas, políticos e organizações internacionais discutissem felicidade como se fosse uma variável económica.

Mas o Butão não é uma espécie de paraíso onde toda a gente vive eternamente sorridente entre montanhas. A sua História inclui guerras, disputas políticas, isolamento, pobreza e uma modernização cuidadosamente controlada. A diferença é que, em vez de simplesmente correr atrás do desenvolvimento, o país decidiu perguntar para onde estava a correr.

Unificação, isolamento e a dinastia Wangchuck

Muito antes de existir um Estado butanês moderno, os Himalaias já eram atravessados por rotas comerciais, comunidades e tradições religiosas. O budismo chegou à região entre os séculos VII e VIII e tornou-se uma das bases da identidade cultural do território. No século XVII, Zhabdrung Ngawang Namgyal conseguiu unificar grande parte do território e estabeleceu uma estrutura política e religiosa que marcou profundamente a formação do país. A geografia ajudava: vales estreitos, montanhas gigantescas e uma quantidade impressionante de caminhos capazes de fazer qualquer invasor reconsiderar seriamente as suas escolhas profissionais.

Durante séculos, o Butão manteve uma autonomia considerável e permaneceu relativamente isolado das grandes transformações que atravessavam o resto da Ásia. No início do século XX, contudo, o pequeno reino começou a aproximar-se de uma estrutura política mais centralizada. Em 1907, Ugyen Wangchuck tornou-se o primeiro rei hereditário do Butão, dando início à dinastia Wangchuck, que continua no trono.

O novo regime procurou preservar a autonomia do país enquanto estabelecia relações mais regulares com as potências vizinhas, sobretudo com a Índia britânica. Durante boa parte do século XX, o Butão continuou extremamente fechado ao exterior. A televisão e a Internet só chegaram oficialmente em 1999, enquanto o turismo internacional começou a ser autorizado de forma controlada em 1974. O país parecia ter adotado uma política nacional bastante simples: se o mundo exterior queria entrar, teria primeiro de marcar hora. E, mesmo depois de abrir as portas, o Butão continuou a controlar cuidadosamente o ritmo da entrada de visitantes.

A Felicidade Interna Bruta e a proteção ambiental

A grande mudança na forma como o país pensava o desenvolvimento surgiu durante o reinado do quarto rei, Jigme Singye Wangchuck, que subiu ao trono em 1972. Foi nessa época que ganhou força a ideia de Felicidade Interna Bruta, segundo a qual o progresso de uma sociedade não deveria ser avaliado apenas pelo crescimento económico.

A filosofia procurava considerar também o bem-estar psicológico, a saúde, a educação, os padrões de vida, a vitalidade comunitária, a diversidade cultural, a qualidade da governação e a proteção ambiental. A ideia acabou por ser incorporada na Constituição e, em 2008, foi criado um índice próprio para avaliar essas diferentes dimensões. Portanto, não se trata simplesmente de perguntar a um cidadão se está feliz antes de lhe entregar o salário. O Butão tentou transformar uma questão filosófica numa ferramenta de política pública. O resultado foi suficientemente original para fazer o resto do mundo prestar atenção.

A preocupação com o ambiente também passou a fazer parte dessa filosofia. A Constituição estabelece que pelo menos 60% do território deve permanecer coberto por florestas, e a conservação ambiental tornou-se uma das características mais conhecidas do país. O Butão chegou mesmo a apresentar-se internacionalmente como um país carbono-negativo, graças sobretudo à sua cobertura florestal e à capacidade de absorção de carbono.

A ideia combina perfeitamente com a lógica da Felicidade Interna Bruta: uma economia pode crescer, mas não vale muito a pena enriquecer hoje se, para isso, for necessário deixar aos filhos um país ambientalmente arruinado. É uma filosofia bastante simpática, embora provavelmente menos popular numa reunião de acionistas interessados em resultados trimestrais.

Transição democrática e os desafios do século XXI

A verdadeira transformação talvez tenha sido política. Durante décadas, o Butão foi uma monarquia absoluta, mas o próprio quarto rei começou a preparar uma transição gradual para um sistema democrático. Foram criadas instituições representativas, o poder executivo foi sendo transferido e, em 2008, o país adotou uma Constituição e realizou as primeiras eleições parlamentares.

Nasceu assim uma monarquia constitucional democrática, com Parlamento bicameral, governo eleito e separação de poderes. A particularidade está no facto de a transição não ter resultado de uma revolução que derrubou a monarquia. Foi a própria monarquia que decidiu preparar a sua transformação. Em vez de esperar que alguém viesse bater à porta para exigir democracia, o palácio decidiu entregar parte das chaves.

Desde então, o Butão tem procurado equilibrar a preservação da sua identidade com as exigências de uma sociedade moderna. O país continua a enfrentar desafios económicos, incluindo a necessidade de criar empregos qualificados para uma população jovem, diversificar a economia e reduzir a dependência de setores como a energia hidroelétrica e o turismo. Em 2023, o Butão deixou oficialmente a categoria das Nações Unidas dos Países Menos Desenvolvidos, depois de cumprir os critérios necessários para a graduação.

Em janeiro de 2024, Tshering Tobgay regressou ao cargo de primeiro-ministro, liderando o Partido Democrático Popular. Em 2026, o governo continua a apostar na transformação económica, na tecnologia, no turismo e no ambicioso projeto Gelephu Mindfulness City, apresentado como um novo polo económico que pretende combinar desenvolvimento, sustentabilidade e os princípios da Felicidade Interna Bruta.

No fundo, a experiência do Butão nunca foi simplesmente descobrir uma maneira simpática de dizer que dinheiro não é tudo. Foi uma tentativa de obrigar o Estado a pensar no desenvolvimento de forma mais ampla. O país continua pequeno, montanhoso, relativamente isolado e cheio de desafios, mas conseguiu transformar uma pergunta aparentemente simples — “as pessoas estão realmente a viver melhor?” — numa filosofia nacional.

Num mundo habituado a medir quase tudo em dinheiro, velocidade e crescimento, o Butão decidiu acrescentar outras unidades de medida: tempo, cultura, ambiente, comunidade e bem-estar. E talvez essa seja a sua maior ironia. Enquanto grande parte do planeta corre desesperadamente para chegar mais depressa sabe-se lá onde, o pequeno reino dos Himalaias decidiu parar por um instante, respirar fundo e perguntar se chegar primeiro era realmente o objetivo.

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